A otite de repetição é uma das queixas mais comuns nos consultórios infantis. Muitos pais se perguntam se tantas infecções de ouvido podem deixar sequelas na audição e atrapalhar a fala ou o aprendizado. A resposta é: na maioria das vezes, não. Mas existe um tipo de otite que costuma passar despercebido, porque não dói, e que pode reduzir a audição por semanas ou meses. Entender isso ajuda a saber quando é hora de fazer uma avaliação auditiva.
O que é otite com efusão, a “otite silenciosa”?
Existem dois quadros principais de otite média, a inflamação da orelha média, que fica atrás do tímpano:
- Otite média aguda: é a infecção com dor de ouvido, febre e irritação, que costuma aparecer após um resfriado.
- Otite média com efusão (OME): é o acúmulo de líquido atrás do tímpano, sem sinais de infecção aguda. Ela é chamada de “otite secretora” ou, em inglês, “glue ear”. Muitas vezes aparece depois de uma otite aguda ou de resfriados, e quase sempre não causa dor.
Esse líquido dificulta a vibração do tímpano e dos ossinhos do ouvido, e o som chega mais abafado, como quando estamos debaixo d’água. É uma perda auditiva condutiva, geralmente leve e temporária, mas que pode durar o suficiente para fazer diferença em uma fase de muito aprendizado.
O que as pesquisas mostram
A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia, atualizada em 2016 a partir de uma revisão sistemática com mais de 200 documentos, traz dados importantes (Rosenfeld et al., 2016):
- Cerca de 90% das crianças têm pelo menos um episódio de otite com efusão antes da idade escolar.
- Em triagens com crianças de 5 e 6 anos, aproximadamente 1 em cada 8 tinha líquido em um ou nos dois ouvidos.
- A maioria dos episódios melhora sozinha em até 3 meses. Por outro lado, 30% a 40% das crianças têm episódios repetidos, e 5% a 10% dos episódios duram 1 ano ou mais.
- O líquido persistente pode estar associado a perda auditiva, problemas de equilíbrio, pior desempenho escolar, alterações de comportamento e pior qualidade de vida.
- A diretriz recomenda fazer um exame de audição adequado à idade quando a otite com efusão dura 3 meses ou mais, ou em qualquer momento em crianças de risco, como as que já têm atraso de fala ou linguagem, autismo, síndrome de Down, fenda palatina ou alterações de visão.
Sobre o tratamento com tubinhos de ventilação (os “drenos” colocados no tímpano), uma revisão Cochrane mostrou que eles melhoram a audição de forma mais clara nos primeiros meses: cerca de 12 dB após 3 meses e 4 dB entre 6 e 9 meses, sem diferença depois de 12 a 18 meses em relação a crianças acompanhadas sem cirurgia (Browning et al., 2010). Por isso, para a maioria das crianças sem fatores de risco, a conduta inicial é a observação atenta, com reavaliações periódicas, e a cirurgia fica reservada para casos selecionados pelo otorrinolaringologista.
Como saber se a otite está afetando a audição do meu filho?
Como a otite com efusão quase não dá sintomas, os sinais costumam ser indiretos. Fique atento se a criança:
- Pede para repetir com frequência ou responde “hã?” o tempo todo.
- Aumenta muito o volume da TV ou do tablet.
- Parece “desligada” ou não atende quando é chamada de outro cômodo.
- Fala mais baixo ou mais alto que o normal, ou troca sons que antes falava bem.
- Tem atraso na fala ou piora na pronúncia depois de resfriados e otites.
- Mexe muito na orelha, tem desequilíbrio ou parece mais desastrada.
- Tem queda de atenção ou de rendimento na escola.
Mesmo crianças que passaram no teste da orelhinha podem ter alterações auditivas depois, como explicamos no texto passou no teste da orelhinha? A audição pode mudar.
Quais exames avaliam a audição na otite?
A avaliação é feita pelo fonoaudiólogo audiologista, de acordo com a idade da criança:
- Imitanciometria (timpanometria): mede como o tímpano se movimenta e mostra se existe líquido atrás dele. É rápida e não dói.
- Audiometria infantil: mede os menores sons que a criança consegue ouvir, com técnicas lúdicas adaptadas à idade, como brincadeiras e respostas com brinquedos.
Os resultados ajudam o pediatra e o otorrinolaringologista a decidir entre continuar observando ou indicar tratamento. Saiba mais em motivos para a criança fazer a audiometria.
Quando procurar
Agende uma avaliação auditiva quando:
- O médico identificou líquido no ouvido por 3 meses ou mais.
- A criança teve 3 ou mais otites em 6 meses, ou 4 ou mais em 1 ano.
- Há atraso de fala, trocas de sons ou dificuldades de linguagem, mesmo com poucas otites.
- Você ou a escola notam que ela parece não ouvir bem, se distrai ou pede para repetir.
- A criança tem condições de risco, como síndrome de Down, fenda palatina ou autismo.
Ouvir bem é a base para falar, aprender e se relacionar. Veja também por que o exame auditivo influencia o desempenho escolar.
Perguntas frequentes
Otite de repetição pode causar surdez?
Na grande maioria dos casos, não. A perda auditiva causada pelo líquido da otite costuma ser leve e temporária e melhora quando o ouvido seca. Raramente, otites crônicas mal acompanhadas causam lesões permanentes. Por isso, o acompanhamento com o médico e exames de audição quando indicados são importantes.
Quanto tempo o líquido da otite demora para sair do ouvido?
A maioria dos episódios de otite com efusão melhora sozinha em até 3 meses. Em 5% a 10% dos casos, porém, o líquido pode durar 1 ano ou mais. Quando persiste por 3 meses ou mais, a diretriz recomenda avaliar a audição para decidir se basta observar ou se é preciso tratar.
Criança com otite pode fazer audiometria?
Sim, e muitas vezes é justamente quando ela é mais útil. A audiometria e a imitanciometria mostram se o líquido está reduzindo a audição e quanto. Durante uma otite aguda com dor ou febre, porém, o ideal é esperar a melhora da crise para fazer o exame com conforto.
Avaliação auditiva infantil em Moema
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Referências
- Rosenfeld RM, Shin JJ, Schwartz SR, et al. Clinical practice guideline: otitis media with effusion executive summary (update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2016;154(2):201-14. doi:10.1177/0194599815624407. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0194599815624407
- Rosenfeld RM, Shin JJ, Schwartz SR, et al. Clinical practice guideline: otitis media with effusion (update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2016;154(1 Suppl):S1-41. doi:10.1177/0194599815623467. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0194599815623467
- Browning GG, Rovers MM, Williamson I, Lous J, Burton MJ. Grommets (ventilation tubes) for hearing loss associated with otitis media with effusion in children. Cochrane Database Syst Rev. 2010;(10):CD001801. doi:10.1002/14651858.CD001801.pub3. Disponível em: https://doi.org/10.1002/14651858.CD001801.pub3